💡 A festa de mela-mela no Ceará é tradição, especialmente nos municípios do litoral. Os foliões jogam goma de tapioca, amido de milho, mel ou melaço e até usam spray de espumas. Sujar um ao outro é basicamente a regra principal, mesmo sem conhecer seu “alvo” ou quem “te ataca”. A origem da festa, que é conhecida popularmente apenas como “mela-mela”, é do período colonial, segundo estudiosos da área, como historiadores, sociólogos e antropólogos. O “ancestral” do mela-mela, conforme os especialistas, é o “Entrudo”, considerado também o “pai do Carnaval brasileiro”. O entrudo surgiu em Portugal e também consistia em brincadeiras de rua para sujar os outros participantes — de maneira ainda mais “agressiva” que no mela-mela. A brincadeira podia acontecer em casa, com familiares, usando águas de cheiro ou limões; ou na rua, onde eram usados urina, lama, água suja, etc. Fora de casa, o entrudo era “vale-tudo”. “A possibilidade de transgressão vai se firmando não somente pelo uso de fantasias de toda ordem, mas pelo contato com o outro a partir de limites que naquele momento eram permitidos por acordos que a própria festa permitia, tal como o mela-mela”, explicou Danielle Maia Cruz, socióloga e psicóloga. “Veja que muito mais que uma diversão, o mela-mela coloca em cena a forma de contato com o outro (o estranho) por meio da sujeira, sendo uma forma proibida em algumas festas por ser entendida como algo que fere posturas e condutas de civilidade”, reforçou. Do Entrudo ao mela-mela Do Entrudo ao mela-mela: algazarra e “sujeira” nas ruas durante o Carnaval foi ganhando novas formas durante os anos. — Foto 1: HORST MERKEL/Acervo dos Museus Castro Maya / Ibram – MinC, Rio de Janeiro — Foto 2: Bruno Gomes A pesquisadora disse que os entrudos portugueses aconteceram com muita força durante o período colonial, havendo nítidas transformações com a chegada da família real em 1808. “Ocorre, por exemplo, o surgimento do Carnaval Veneziano influenciado pelas festividades europeias tidas como civilizadas, bem diferente dos modos como ocorriam os entrudos; festa marcada nas ruas entre pessoas que se divertiam arremessando umas nas outras barro, farinha, sabão, dentre outros líquidos”, explicou a professora da Universidade de Fortaleza (Unifor). As mudanças na festa popular lusa se deram, conforme a professora universitária, especialmente pela força da ideia de civilidade que chegou ao Brasil com a vinda da família real no século XIX. “Novos códigos de comportamentos são instaurados”, disse. “Assim, após algum tempo, outras formas de diversão relacionadas ao Carnaval vão tomando mais força como cortejos de carros, festas em clubes com bailes de máscaras, festas com fantasias, bem como em casas privadas”. “Contudo, não se pode esquecer que a sociedade é tensionada. Se de um lado surgem essas ideias mais civilizatórias sobre a festa, por outro lado, persistem modos de diversão que tomam as ruas das cidades no país, inclusive as festas tidas como populares e de massa que se constituem a partir de dinâmicas próprias”, destacou Danielle. A pesquisadora Vanda Lúcia de Souza Borges, em sua tese de doutorado “Carnaval de Fortaleza: tradições e mutações”, explicou que: “A partir de 1870, o entrudo tornou-se menos grosseiro pela substituição daqueles pós diversos por laranjinhas de borracha ou cera com água de cheiro”. “Mas algumas das práticas do entrudo persistiram no carnaval do Ceará por mais tempo, nas atividades conhecidas como mela-mela, notadamente entre os segmentos populares, até porque, devido as suas carências materiais, a maioria da população não podia adotar, como ainda hoje não pode, produtos e apetrechos mais sofisticados, que implicam dispêndio financeiro”, reforçou a pesquisadora no trabalho apresentado ao programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Força no litoral No mela-mela, foliões sujam uns aos outros sem se importar com quem é o alvo da “bomba de goma”. — Foto: Bruno Gomes Apesar de não ser exclusivo ao litoral, foi na folia próximo às praias do Ceará que o mela-mela ganhou força. “É preciso lembrar que em diversas localidades do Brasil, as festas de Carnaval ganham força quando associadas ao incentivo do turismo pelo poder público”, explicou Danielle Maia Cruz. Em meados dos anos 1990, o Carnaval das praias no Ceará se firmou seguindo os mesmos modelos de festa com trio elétrico de Salvador. Com isso, foi, cada vez mais, virando tradição se sujar nas ruas durante a folia. O clima de “desordem”, no entanto, fica limitado à festa. No Ceará, não há lei estadual que proíba a prática. No entanto, municípios podem adotar medidas locais como, por exemplo, a apreensão por órgãos fiscalizadores dos materiais usados na algazarra. Em 2026, a Prefeitura de Paracuru — onde tradicionalmente os foliões fazem mela-mela — orientou para o uso consciente da goma, mas não há determinação de apreensão dos materiais. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará
Festa de mela-mela: tradição tem origem portuguesa com lama e urina no lugar da goma e amido de milho
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